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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Homem da tevê

Imagem: Thiago Lupo


> TÉCNICA: ABRE PLANO AMERICANO NO APRESENTADOR. CÂMERA EM MOVIMENTOS RÁPIDOS FAZENDO ZOOM E LOOPINGS.
> BG: ABRE TRILHA DE RICHARD WAGNER

APRESENTADOR: É um absurdo o que vocês de casa vão ver hoje aqui! Quando eu digo que o Brasil não vai pra frente, as pessoas não acreditam. A nossa equipe de reportagem FLAGROU, eu disse flagrou, porque isso não é só uma notícia é um serviço público, um FLAGRANTE de esquecimento ao cidadão. Esquecimento do cidadão que precisa do INSS em São Paulo. Vamos ver esta matéria. É com você Suzana!

> TÉCNICA: CORTA PRA REPORTER DE CAMPO
> BG: FECHA TRILHA  DE RICHARD WAGNER

REPÓRTER DE CAMPO: Hoje estamos no INSS da Xavier de Toledo aqui no centro de são Paulo...

> TÉCNICA: CORTA PARA APRESENTADOR - ABRE PLANO DETALHE NO ROSTO DO APRESENTADOR

APRESENTADOR: Gravem bem esse lugar, telespectador, gravem bem este lugar. Pode continuar Suzana

> TÉCNICA: CORTA PARA JORNALISTA

REPÓRTER DE CAMPO: É isso mesmo Milton estamos aqui e a nossa equipe de produção flagrou, como você bem disse, uma cena de descaso com os aposentados brasileiros. Um senhor, de sessenta anos de idade, morreu na fila de xerox depois de ficar 7 horas aguardando para ser atendido. Ele teve um infarto e não resistiu. Um amigo dele que estava aqui desde cedo vai contar para o Brasil um pouco do que aconteceu.

ENTREVISTADO: Nóis tava tudo esperando pra ser atendido alí no guichê 25 - pra podê dá entrada na aposentadoria, né. Aí Chegô a vez dele mas ficô faltano um documento e ele saiu pra arrumá... só que depois ele não voltou mais.

> TÉCNICA: CORTA APRESENTADOR

APRESENTADOR: Segura Suzana... Segura Segura só um minutinho essa notícia porque eu tenho que falar uma outra coisa muito importante para as pessoas de casa. Você já tem o Car System? Eu tenho e é bom. Está na hora de você também....

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Homem e a paisagem humana

Imagem: Thiago Lupo


Aquela chuva nunca mais ía parar de cair. Ela veio para ser a eterna chuva daquela noite infinita. Acendi um cigarro, protegi-o com minha mão em concha, dei dois tragos e sai de um toldo para me proteger em outro. A água formava um rio que eu era forçado a pular e serpenteava na sarjeta, empurrando toda a sujeira da cidade para os bueiros entupidos.

Eu tinha pressa. Olhei para o relógio que marcava quinze pra uma da manhã. Isso significava mais uma noite num destes muquifos do centro. Sentia-me como um personagem dos quadrinhos do Batman à procura de um abrigo. Um pouco à frente, li na placa: "23 reais - pernoite". Dei um último trago antes de entrar, olhei para o lado e fiquei completamente estático por infinitos segundos. Aquela cena era infinita demais pra mim. Infinita como a chuva que caía.

Traguei o ar com gosto filtro molhado já sem brasa, arremessei-o ao léu, subi e não preguei o olho durante toda a noite.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Homem de partida

Imagem: Thiago Lupo
Que meus pés sigam para o norte, meus olhos me guiem e que meu coração seja a bússola pro infinito estradar de chão de terra. Não olharei para trás, não por orgulho nem por medo, apenas para ter certeza para onde devo ir. Não direi adeus. O adeus é para sempre. E como posso eu dizer adeus se minha vida é um eterno recomeço? Rodrigo Lima

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Homem sozinho

Imagem: Thiago Lupo

Dará ela a luz aos meus mais prematuros desejos?
Gostará ela do presente que comprei?

De volta à sua kit no copam, ele se sente completamente apagado. Dois anos de conversa pelo messenger, longos e-mails de amor e milhares de apresentações de power points com golfinhos apaixonados foram todos jogados no lixo. Ela não apareceu no lugar marcado e ele se sentiu velho novamente. Velho e sozinho.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O bicho grilo


A cidade anda repleta destes novos baianos. São os bicho grilos que vivem pela Vila Madalena curtindo a noite e som. Sempre atrás de uma atração bem cultural, adoram falar sobre projetos sociais e sarais no Campo Limpo. Tão por aí de sandália, bebem cerveja no copo americano e preferem os bares roots cujos cardápios são desenhados à mão. Falam do péssimo trânsito da cidade e da necessidade de estar curtindo aquela brisa numa praia do litoral norte. Colam nos picos de maracatu da Pompéia e recitam poemas de cordel no parque do Ibirapuera. Na páscoa, viajam para ilha bela e fumam unzinho até o queixo cair da cara. Dão risada de tudo. São graciosos para o sistema, assim como eram os bufões para a corte.

sábado, 16 de outubro de 2010

O Homem da rua

Imagem: Thiago Lupo
Ali tinha uma casa em cima da outra. Ce tá veno naondi tem um pixo amarelo? Ali, mano escrito Sabotage? Então, ali era um barzinho qui nóis ficava... tinha sinuca e tudo. Falaram que íam dar um dinheiro pra nóis deixar o lugar, mas se barraco valesse alguma coisa, não se chamava barraco, né nego... hahahaha... deram um barão pra nóis mas isso não paga nem um meis de aluguel aqui no brooklin. Ce trabalha por aqui né? Acho que o que estragou mesmo o Espraiada foi essa ponte, porque antes nóis era nada, mas co’ela nóis passamo a ser visto. Dá um cigarro desse seu pra mim? Acabou de queimar um incêndio ali na favela do real parque, ce viu? Viu não? Como não, foi na frente da globo, num foi não? Então, depois do pixo amarelo tinha um zinco, tá veno alí? Bem ali memo! Morava lá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Homem da casa

Imagem: Thiago Lupo

“Vai casar no tempo de casar, com um homem direito, formado na igreja, sem vícios nem malandragens. Não quero ver filha minha sendo mulher de bandido, tomando porrada na cara e servindo pinga pra sem vergonha na rua, você viu o que aconteceu com a filha da Mariza, não viu?”

Ele olhava pra ela uma única vez e toda a brincadeira de roda cessava. Amava demais a criança, mas não suportava ver seus seios começarem a firmar no peito. O corpo aos poucos tomava jeito e a cabeça ia largando a boneca. Não, ela não podia sair de jeito nenhum. Não podia ter amigos no bairro, nem podia dançar a dança da moda. Tornou-se religioso só para dar um caminho descente pra sua criança. A mãe comprava batom escondido pra que ela só usasse na hora do colégio. Ele chamava isso de sebo de boca: “enquanto morar comigo é do meu jeito”.

Na hora do banho, batia punheta pensando na Mariza pelada.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Homem do campo

Imagem: Thiago Lupo

"Ai numa construção si viu de uma vez por todas desabar." - Vital Farias

O homi caiu cum tudo, num deu tempo nem di oeia
Mah foi memo agora que o bicho tava com a gente aqui
Acho que ele nunca foi daqui, ele gostava era do mato, gostava da roça..

Gostava do manejo da terra e das entranhas que em seu coração crescia raízes cultivadas. Gostava do cedinho da manhã que era hora de acordar e gostava de compor no mundo que tinha uma lentidão que já não se vê. Lá a terra leva tempo pra fazer agrião, abóbora, milho, inhame. Leva tempo pra pingar o leite da cabra. Homi o mundo tem o tempo de crescer. Aqui o prédio firma em quarenta semanas, ma lá não. Tem árvore que de nascido ela era pequena e no tempo da morte ainda tinha o tamanho de duas pessoa.

Ma que jeito tinha de ficar lá? Pelo menos aqui ele pede... lá não tem nem pra quem pedir, tá todo mundo viveno como os bichos, caçando os pedaço de palma quando aperta a danação. Oh Moço, mas não vi nem quando caiu. Ce trouxe batata na marmita, foi?

Não me procure se não for importante